EM CRÔNICA E CORRESPONDÊNCIA, O TRAÇADO INDECISO DE UM PERFIL BRASILEIRO
Marília Rothier Cardoso – PUC-RJ
Através da leitura fluente e agradável do seu A vida literária no Brasil – 1900, Brito Broca refere-se a um discurso de Coelho Neto, proferido na Câmara Federal, em torno de 1910, onde o escritor-deputado aponta a falta de uma composição poética, que servisse de letra para a música do hino nacional. Na versão apresentada por Broca, o argumento de Coelho Neto apoiava-se em advertência feita por Euclides da Cunha. Quando de sua missão diplomática à fronteira do Brasil com o Peru, no Alto Purus, Euclides dir-se-ia envergonhado, ouvindo o hino peruano, cantado com entusiasmo, pois previa o embaraço de seus compatriotas se, em situação equivalente, tivessem de fazer o mesmo. Esse episódio, que revela a preocupação de incluir o povo das selvas na comunidade nacional, contrapõe-se a outro, representando um encontro de Olavo Bilac com Medeiros e Albuquerque em Paris, onde o jornalista teria ficado surpreso com a confissão do poeta de detestar a natureza. Seu interesse exclusivo dirigia-se aos “ambientes urbanos e civilizados”.[1]
Urdido com tais fios contrastantes, o texto de Brito Broca, encanta o leitor contemporâneo. Para além da graça com que alude à petite histoire de nossas figuras antológicas, o cronista demonstra a inteligência despretenciosa de, sempre atento “ao mínimo e ao escondido”, insinuar impasses e ambigüidades no processo brasileiro de construção de um perfil identitário. Quando tomamos conhecimento do debate complexo, que se trava, nas últimas décadas, a propósito da questão pós-colonial, voltamo-nos, com alguma perplexidade, para nossa própria história. Entre a declaração de independência e o manifesto da vanguarda antropofágica, entre a consciência do subdesenvolvimento e a adesão a movimentos globalizadores, os caminhos têm sido pouco seguros.
Do ponto de vista dos estudos literários, apresenta-se uma encruzilhada ao estudioso – a estratégia de priorizar as belas letras, com o conseqüente apego ao cânone ocidental, justificado por razões estéticas (supostamente) sem gênero e sem pátria, ou a opção pelo enfoque culturalista de base interdisciplinar, onde é necessária uma atitude desconstrutora sistemática para o resgate de discursos marginais, que ofereçam resistência aos modelos metropolitanos e ao gosto majoritário. O desejo de tomar efetivamente a segunda direção, sem restringir-se à paráfrase da teoria produzida em inglês, é que indica uma releitura atualizadora de nossos “críticos-cronistas”[2] dos anos quarenta, cinqüenta -- Brito Broca, Magalhães Júnior, Galante de Souza, entre outros. Esses escritores autodidatas, cuja produção, independente da universidade, divulgava-se pela imprensa, apresentam uma perspectiva de trabalho semelhante (guardadas as proporções) aos interesses de agora. Dedicaram-se, como vários de nós, à pesquisa de obras “menores” -- cartas, anotações, diários, folhetins -- em arquivos públicos e privados. Buscaram, também, traçar o esboço de amplos panoramas culturais, onde se possam rastrear as tendências ideológicas, os critérios de valor e os padrões interpretativos, que serviram de solo à produção artístico-literária de um período.
Foi Silviano Santiago que , no prefácio à edição de Machado de Assis e a política, apontou a força da tarefa de Brito Broca, mostrando a sistematicidade de seu desempenho, perceptível mesmo através da linguagem ligeira e fragmentada, própria do jornal, onde se veiculou a maior parte dessa crítica. Apontou, também, a importância de conhecê-la, hoje, para retomar seu “trabalho junto aos pequenos e grandes monumentos do passado”[3], resultante de pesquisa conscienciosa feita nas coleções de manuscritos e periódicos da Biblioteca Nacional. A palavra de Silviano Santiago tem, nesse caso, grande autoridade, pois ele foi pioneiro na rejeição do método de busca de fontes e influências para o julgamento de literaturas de linhagem colonial. Em ensaio de 1971, estabeleceu “o entre-lugar do discurso latino-americano”,[4] empregando o conceito de intertextualidade transgressora para uma avaliação consistente de textos obrigados a se escreverem repetindo -- como paródia ou pastiche subversivo – a tradição ocidental.
A proposta de seguir as pegadas de Broca e Santiago, para reler fragmentos de crônica e correspondência da belle époque, esquecidos nos arquivos ou nas páginas jornalísticas de “críticos-cronistas”, tem triplo objetivo: explorar momentos produtivos de tensão entre interesses cosmopolitas e localistas expressos pelos escritores que precederam o projeto abrasileirador da vanguarda; tirar partido, conforme a indicação de Homi Bhabha, da “ambivalência” de estereótipos -- sejam coloniais ou nacionais – como ponto possível de intervenção desconstrutora;[5] e inserir-se na linha dos estudiosos, que avaliam um legado cultural, privilegiando as margens dos gêneros canônicos e das grandes literaturas.
A certa altura de A vida literária no Brasil – 1900, lê-se o seguinte comentário, meio admirado, meio irônico: “Ao invés de um passeio a Paris, expressão que andava sofregamente nos lábios de todos os confrades de letras, Euclides da Cunha queria passear no Acre”.[6] Enfatizando o contraste, Broca procura destacar a singularidade do projeto euclidiano, naquele ambiente afrancesado. No entanto, as expectativas de Euclides -- realçadas pelo estilo hiperbólico da escrita e das atitudes com que se revelavam -- eram menos opostas do que complementares em relação aos desejos de seus contemporâneos. É possível perceber transformações, ainda difusas, na consciência de nacionalidade, exposta nos lances mais claros da cena cultural daquela virada de século.
O percurso intelectual de Euclides, rastreado através de suas cartas e anotações pessoais, demonstra , pelas mudanças súbitas e dramáticas de perspectiva crítica, o quanto os símbolos brasileiros eram ambivalentes. O sertanejo de modos selvagens, por exemplo, causava vergonha e orgulho, simultaneamente. Por isso mesmo, durante a viagem para a Bahia, em agosto de 1897, Euclides anota, na “caderneta de campo”, sua confiança na jovem república e seu ódio à horda de fanáticos retrógrados. Repetindo as palavras dos artigos jornalísticos, que lhe garantiram a missão de repórter enviado a Canudos, registra um impulso destruidor: “Que a nossa Vendéia se envolva num largo manto tenebroso de nuvens, avultando além em contraste com os deslumbramentos do grande dia tropical que nos alenta como a sombra de uma emboscada; rompê-la-emos em breve com as fulgurações da metralha e o cintilar vivíssimo de espadas.” [7] Páginas adiante, seu testemunho da luta perde o tom vitorioso e deixa escapar uma nota de admiração pelos adversários: “Encurralados na igreja nova continuam os jagunços, impertérritos na resistência.” Em seguida, grafa, com espanto: “Que inimigo incompreensível este!” E, na última reportagem, enviada a 1º de outubro para O Estado de São Paulo, jádestaca “a heróica selvatiqueza revelada pelo jagunço”.[8]
Certamente, o choque de presenciar os combates, no interior baiano, fez com que Euclides transformasse sua perplexidade em ousada reflexão crítica e redigisse Os sertões. A boa acolhida imediata, que o livro recebeu, ao ser publicado em 1902 e reeditado no ano seguinte, demonstra que, através de Euclides, a intelectualidade brasileira deu-se conta – ainda que confusamente -- da necessidade de rever os velhos estereótipos do sertanejo puro e feliz ou do sertanejo atrasado e perigoso. Principalmente, através da leitura do livro de Euclides, nossa intelectualidade fin de siècle descobriu a dupla fronteira que lhe cabia demarcar e defender -- a exterior, com os parceiros latino-americanos e com os europeus movidos pelo interesse neocolonial, e a interior, com nossas populações rurais tão pouco conhecidas.
No momento em que se sente seguro, diante das críticas elogiosas feitas a Os sertões pelas vozes mais autorizadas da época, Euclides da Cunha amiúda a correspondência com seus futuros pares do Instituto Histórico e da Academia Brasileira de Letras. Em carta de 12 de março de 1903, a Araripe Júnior, autor de um estudo sobre Gregório de Matos, ensaia uma definição interessante da obra do poeta seiscentista. Observando que este teria sido “herói” porque “prefigurou, fundindo-se na sua individualidade isolada, muitos aspectos de um povo”, Euclides considera, em Gregório de Matos, “mais do que o homem (...) um admirável órgão social quase passivo, feito uma alavanca, cuja força eram as próprias forças coletivas: uma máquina simples em que se corporizaram muitas tendências da raça nova que surgia.”[9] Mesmo que não tivesse consciência clara disso, Euclides se auto-representava, enquanto escritor, nessa definição do “Boca do Inferno”. Se tomarmos de empréstimo, a Deleuze e Guattari, a noção de que, numa “literatura menor”, a palavra individual do escritor torna-se “enunciação coletiva” e ganha força política revolucionária, notaremos que a “máquina simples”, a que Euclides se refere, não é outra senão aquela “máquina literária” produtora de “uma solidariedade ativa”.[10] Com sua poesia, que mesclava o português camoniano ao espanhol de Gôngora mas também aos dialetos tupis e africanos, Gregório teria alavancado tal máquina no passado, sendo seguido, na abertura do século vinte, por Euclides da Cunha, cuja escrita entrecruza ciência positivista e impressionismo artístico, o português super-elaborado dos retóricos e o português anacrônico dos jagunços sertanejos. Essa expressão estilizada de referências múltiplas, que fascina os leitores de Os sertões, deve ter sido responsável por acentuar a ambivalência de nosso perfil identitário e produzir um abalo nos fundamentos colonialistas do saber que professávamos.
Quem se detém, nos escritos pessoais e circunstanciais de Euclides da Cunha, percebe que estes integram sua “máquina literária”, funcionando em articulação com Os sertões e com as coletâneas posteriores de ensaios. Trata-se de máquina montada para reunir forças contraditórias, na forma apaixonada da hipérbole, que, ao mesmo tempo, cristaliza e abala os emblemas e símbolos representantes de tais forças. Nos artigos de estreante, de 14 de março e 17 de julho de 1897, a ousadia das comparações reveste o sertanejo distante com a figura reacionária dos camponeses de Vendéia, de modo a acender a indignação dos leitores. Com igual ímpeto de testemunha convicta, os registros fragmentários -- mas não menos rigorosos -- da “caderneta de campo” descrevem a resistência inacreditável dos mesmos sertanejos que, vistos de perto, reduzem-se a jagunços subnutridos mas heróicos. Essas descrições alternam-se com anotações sobre o sertão baiano, croquis de acidentes geográficos e de formações geológicas, glossários de termos locais, cópias de notícias da imprensa provinciana e de cartas escritas por homens do bando do Conselheiro – toda sorte de apoios, que o repórter-pesquisador foi recolhendo, na busca obstinada de explicar o espetáculo horrível e fantástico, difícil de ser traduzido em termos da razão científica ou do bom senso civilizado.
O amazonense José Veríssimo é o interlocutor preferido, quando as cartas de Euclides discutem seu plano de lançar-se, de novo, em aventuras pelo interior. Trata-se de seu “ideal de bandeirante”. Em 7 de julho de 1904, escreve: “Estou cada vez mais animado em levá-lo por diante. Que melhor serviço poderei prestar à nossa terra? Além disso, não desejo Europa, o boulevard, os brilhos de uma posição, desejo o sertão, a picada malgradada, e a vida afanosa e triste de pioneiro.”[11] O mecanismo escritural de heroicizar-se, para também transformar em herói o objeto de sua pesquisa, não permite qualquer nota de humor em seu texto. Raríssimas vezes, descontrai-se, o que é deplorável. O trocadilho, se mais praticado, poderia levá-lo a uma produtiva auto-crítica. Veja-se a seguinte passagem, pinçada de carta a Plínio Barreto, de setembro de 1904, dando conta das providências para a viagem: “aqui estou arrumando a papelada – preparando-me para a romaria de 1500 léguas ao Purus. Quase escrevi Paris. Realmente penso que nenhum rastaqüera arranja as valises para a patuscada reles dos boulevares com entusiasmo maior do que este meu entusiasmo no avançar para o deserto”.[12] Com certeza, Euclides não poderia dar-se conta de que, além da engraçada semelhança fônica, haveria, talvez irremediavelmente, uma marca parisiense, no olhar de qualquer brasileiro culto sobre o Purus. O ufanismo da abertura do século XX ainda não possibilitava, nem aos espíritos mais preparados, desconfiar das insidiosas armadilhas do discurso colonial. A “inflexibilidade” do ideal de Euclides atrelou sua escrita aos limites de uma pedagogia nacionalista, presa a noções estereotipadas e a símbolos oficiais. Como lembra Brito Broca, certamente não foi gratuita a menção que lhe fez Coelho Neto. Nos sonhos do autor de Os sertões, sempre se incluía o hino nacional – de preferência, entoado na selva.
De uma geração mais jovem que Euclides, Monteiro Lobato retomou, a seu modo, algumas das trilhas deixadas pelo antecessor. Preocupado com a fronteira interna da nação, buscou definir o caboclo, em traços nervosos de caricaturista, idealizou as campanhas progressistas do ferro e do petróleo e escreveu uma série de livros infantis. Tendo-se formado escritor a partir das leituras francesas, interessou-se pelo liberalismo econômico norte-americano, apresentando ao país alternativas modernizadoras. Deixou uma imagem polêmica, que Brito Broca procura delinear, sempre privilegiando os gêneros “menores”, através do exame da longa correspondência que ele manteve com Godofredo Rangel. Guardadas cuidadosamente pelo amigo também escritor, as cartas de Lobato editaram-se com o título de A barca de Gleyre.
Como é bastante sabido, nas duas primeiras décadas do século, as cartas de Lobato a Rangel, tratam quase exclusivamente de literatura. Os dois colegas do curso de Direito são escritores em potencial, que discutem suas leituras constantes e seus projetos ambiciosos de construção da obra futura. Nesse sentido, a carta de 20 de outubro de 1914 exige atenção, pois testemunha as circunstâncias da estréia de Monteiro Lobato. Este escreve da fazenda Buquira, na serra da Mantiqueira, e começa, observando: “Vida em fazenda antes personaliza do que uniformiza”. Parece-lhe, ali, ter encontrado o filão literariamente produtivo, que buscava (“Quantos elementos cá na roça encontro para uma arte nova!”) E, no vislumbre da novidade, destaca-se a figura central – “Nessa obra aparecerá o caboclo como o piolho da serra, tão espontâneo, tão bem adaptado como nas galinhas o piolho-de-galinha (...)”.[13] Vale dizer, aqui, que, embora intoxicado da leitura dos Camilo e Maupassant, é, na reflexão atrevida sobre seus problemas diários de fazendeiro iniciante, que Lobato produz seus primeiros textos de impacto.
Os termos, empregados para explicar a Rangel como “gestava” sua obra, vão servir a Lobato para o planejado desvio do gosto parnasiano predominante. No coloquialismo da carta, o remetente assim desabafa: “Atualmente estou em luta com quatro piolhos (...) – ‘agregados’ aqui das terras. Persigo-os, quero ver se os estalo nas unhas. Meu grande incêndio de matas deste ano a eles o devo. Estudo-os.” Seu objetivo é “contar a obra de pilhagem e depredação do caboclo. A caça nativa que ele destrói, as velhas árvores que ele derruba, as extensões de matas lindas que ele reduz a carvão.” Considera a experiência prática como arma poderosa contra o comodismo e o estereótipo. Foi o forte traço alienante da literatura campestre, que o acordou para a necessidade de uma ruptura violenta:
é preciso matar o caboclo que evoluiu dos índios de Alencar e veio até Coelho Neto (...). A nossa literatura é fabricada nas cidades por sujeitos que não penetram nos campos de medo dos carrapatos. E se por acaso um deles se atreve e faz uma ‘entrada’, a novidade do cenário embota-lhe a visão, atrapalha-o, e ele, por comodidade, entra a ver o velho caboclo romântico já cristalizado.[14]
No traço descritivo caracterizador do caboclo como “piolho-de-serra”, fica óbvio o mecanismo de deformação caricatural, que, ao mesmo tempo, renega e substitui a imagem do camponês idealizado. Estribando-se numa espécie de realismo cru, Lobato não percebe, em seu caboclismo raivoso, a repetição paródica do mesmo símbolo estereotipado, que atribui, apressadamente, a Alencar. No entanto, não resta dúvida sobre a eficácia estratégica desse ímpeto desconstrutor de um discurso, cujo etnocentrismo torna-se, então, indisfarçável. Prova disso é a grande repercussão, que tiveram os dois artigos sobre o assunto, redigidos, no calor da hora, e enviados para a seção de “Queixas e Reclamações” de O Estado de São Paulo. Receberam os títulos de “Velha praga” e “Urupês” e saíram, respectivamente, a 12 de novembro e 23 de dezembro de 1914 . Os redatores de O Estado, certamente percebendo a força daquela linguagem desabrida, deslocaram os artigos para página mais nobre do jornal e convidaram o fazendeiro-letrado para colaborar com mais assiduidade. Foi, assim, pela porta do periodismo (como o próprio autor lembra), que, em meio a um laborioso preparo para tornar-se um contista modelar, Lobato acaba-se lançando, com sucesso, na vida literária brasileira.
Brito Broca teve razão de dar destaque, em vários momentos de seu estudo, à correspondência de Monteiro Lobato, pois, mais importante do que o desmonte do “balsâmico indianismo de Alencar”, ficou sendo a transposição para o discurso público dos mesmos mecanismos de ênfase cômica e de familiaridade, usados nas cartas. Ao fim da belle époque, Lobato soube adequar-se aos novos tempos, invadindo o convencionalismo do espaço público com um discurso de estilo privado, sem falsos pudores de vender-se como mercadoria. Essa invasão moderna desejando-se também brasileira, apresentou à platéia urbana, com estrépito, “o caboclo, espécie de homem baldio, semi-nômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela (...), com o seu cachorro, o seu pilão, a picapau e o isqueiro, de modo a sempre conservar-se fronteiriço, mudo e sorna”.[15] Como já se comentou, a desejada brasilidade é bastante discutível. Mas trouxe-nos um símbolo a mais -- o Jeca Tatu --, tão esquemático como seus antecessores. Talvez necessário para corromper certa euforia da República Velha, tanto quanto, mais recentemente, a consciência do subdesenvolvimento abalou a euforia dos anos sessenta.
Podem-se traçar alguns paralelos entre as trajetórias intelectuais de Monteiro Lobato e de Euclides da Cunha. Aliás, o primeiro confessa-se admirador do segundo. Em artigo publicado na revista Cultura, em novembro de 1938, louva a tradução de Os sertões para o espanhol, pois considera importante a divulgação do “formidável tríptico brasiliano – a Terra, o Homem e a Luta”. Reclama, para aquele “poema de brutalidade e força”,uma crítica mais compreensiva e, demonstrando sua afinidade com a obra do antecessor, define-o como “gênio”, superior a Machado de Assis, que reconhece apenas como um “talento”.[16] Enquanto homem de letras, Lobato identifica-se com Euclides no interesse de trabalhar com um texto misto de ensaio e ficção, que sirva a propósitos estéticos e práticos. Por isso mesmo, foram artigos jornalísticos de impacto, que alavancaram a carreira intelectual de um e de outro. Para ambos, a correspondência com o amigo literato (Godofredo Rangel, no caso de Lobato; Francisco Escobar, no de Euclides), como bem destaca Brito Broca, constituiu o móvel principal das respectivas “máquinas literárias”. Estas, por seu turno, tornaram-se máquinas de guerra contra o convencionalismo da grande literatura, projetando inserir, através da “enunciação coletiva”, os signos da margem rural, no discurso dominante da cidade europeizada. Se, nesse projeto, o sucesso de ambos foi relativo, a publicidade, que alcançaram, mostrou-se suficiente para definir novos rumos no processo de identificação dos brasileiros.
Responsável pela estréia bem sucedida de Monteiro Lobato, o Jeca Tatu nunca mais se desvinculou da imagem do escritor e foi, efetivamente, retomado por ele, em vários momentos de sua carreira. Quem acompanha o percurso dessa personagem-emblema vai descobrindo que, a cada nova versão do Jeca, acopla-se à criatura mais um aspecto das idéias e atividades do criador. Em 1917, numa fase da vida brasileira em que as preocupações nacionalistas privilegiavam pesquisas folclóricas, coube a Lobato organizar e editar, para O Estado de São Paulo, um inquérito sobre o Saci Pererê. Comentando, com Rangel, a 8 de dezembro, seu desempenho da tarefa, considera: “Ontem escrevi o Epílogo, a coisa mais minha que fiz até hoje – e concluo com a apologia do Jeca. Virei a casaca. Estou convencido de que o Jeca Tatu é a única coisa que presta neste país.”[17] À medida que, já vivendo em São Paulo e iniciando-se no mundo editorial, retoma temáticas regionais ou locais, Lobato superpõe, cada vez mais obviamente, as imagens do caboclo e do país: um, anacrônico e abandonado; o outro, preso às malhas do imperialismo racista.
Sempre pragmático e preocupado com o progresso da nação, o escritor lança, por sua própria editora, em 1918, uma reunião de artigos sobre saúde pública, O problema vital. No ano seguinte, compila novos artigos, desta vez, emitindo suas opiniões personalíssimas sobre arte e cultura; nomeia o livro, Idéias de Jeca Tatu. Assim, assume, explícita e publicamente, a identidade do Jeca para combater o afrancesamento comodista dos modos e modas sociais. Tempos depois, juntando esses propósitos intelectuais a seus interesses de comerciante, reescreve a história do Jeca com final feliz -- “A ressurreição” – no almanaque dos produtos Fontoura. Sob a égide da nascente indústria capitalista, o “agregado” opilado toma remédios e vira um fazendeiro rico. Assim, a cura e reeducação de Jeca Tatuzinho termina conhecida dos brasileiros de norte a sul. E, já em 1947, próximo do fim da vida, tomando a defesa do partido comunista, ameaçado de ilegalidade, Lobato, mais uma vez, faz reviver o Jeca Tatu, agora, confundindo seu destino sombrio com o do país. Essa última versão passa a chamar-se Zé Brasil.
Com sua redação sedutora, Gilberto Freyre analisa, no estilo de Euclides da Cunha, o efeito de um mecanismo inconsciente, que condensa o objeto do enunciado ao sujeito da enunciação. Nas palavras de Freyre, “seria um erro ver na paisagem do grande livro de Euclides um simples capítulo da geografia física e humana do Brasil (...). A paisagem que transborda d’ Os sertões é outra: é aquela que a personalidade angustiada de Euclides da Cunha precisou de exagerar para (...) afirmar-se -- junto com ela -- num todo dramaticamente brasileiro em que os mandacarus e os xiquexiques entram para fazer companhia ao escritor solitário, parente deles no apego quixotesco à terra e na coragem de resistir e de clamar por ela”. [18] Esse jogo de aproximar e superpor a imagem do “outro” à do “mesmo”, como sociologia, autobiografia e rebelião política, indica o trabalho, diverso mas equivalente, das “máquinas literárias” de Euclides e Lobato. Ao longo das décadas, elas receberam leituras -- através de perspectivas críticas tão diferentes quanto as de Broca, Freyre e Santiago – capazes de apontar a complexidade e a ambivalência do perfil identitário pessoal e nacional, traçado no conjunto de discursos, que, buscando romper o círculo da razão colonialista, transcrevem-se como “literatura menor”. Em nenhum desses momentos observados, a ruptura plena chegou a operar-se. No entanto, ficou registrado o processo, longo e difícil, em que uma comunidade, como a brasileira, vai-se reconhecendo multicultural.
[1] BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900. Rio de Janeiro: MEC, 1956, p.93.
[2] SÜSSEKIND, Flora. Papéis colados. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, p. 15,16.
[3] SANTIAGO, Silviano. “Força subterrânea”. In: BROCA, B. Machado de Assis e a política. São Paulo: Polis; Brasília: INL, Fund. Pró-Memória, p.15.
[4] SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. São Paulo: Perspectiva, 1978, p. 11-28.
[5] BHABHA, Homi. “A questão do ‘outro’: diferença, discriminação e o discurso do colonialismo”. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de, org. Pós-modernismo e política. Rio de Janeiro: Rocco, 1991, p.178.
[6] BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900. Rio de Janeiro: MEC, 1956, p.99.
[7] CUNHA, Euclides da. Caderneta de campo.Org. Olímpio de Souza Andrade. São Paulo: Cultrix, 1975, p.5. As duas citações seguintes estão, respectivamente, nas páginas 65 e 69.
[8] CUNHA, Euclides da. Diário de uma expedição. Org. Walnice Nogueira Galvão. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p.207.
[9] GALVÃO, Walnice N. & GALOTTI, Oswaldo, org. Correspondência de Euclides da Cunha. São Paulo: Edusp, 1997, p.155.
[10] DELLEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Kafka – por uma literatura menor. Trad. Júlio C. Guimarães. Rio de Janeiro: Imago, 1977, p.26,27.
[11] Idem. p. 211, 212.
[12] Idem. p. 234.
[13] LOBATO, Monteiro. A barca de Gleyre. 2. ed.São Paulo: Brasiliense, 1948, p.362, 363, v.1.
[14] Idem. p. 364, v.1.
[15] LOBATO, Monteiro. “Velha praga”. In:-------. Urupês. 15. ed. São Paulo: Brasiliense, 1969, p.271.
17 LOBATO, Monteiro. “Eu tomo o Sol...” In: Conferências, artigos e crônicas. São Paulo: Brasiliense, 1959, p.238-240.
[17] LOBATO, Monteiro. A barca de Gleyre. 2.ed.São Paulo: Brasiliense, 1948, p.160, v.2.
[18] FREYRE, Gilberto. “Euclides da Cunha: sua interpretação do Brasil”. In:----- . Vida, forma e cor. Rio de Janeiro: José Olympio, 1962, p.139.